a Não foi à toa que Leboyer propôs um parto diferente, em que a criança nascesse sorrindo e não chorando. Com o nascimento nasce o medo, disse ele. E relata, em Shantala, que os acontecimentos das semanas seguintes também provocam emoções muito fortes. A criança se desenvolve ao mesmo tempo física e psiquicamente. Se o desenvolvimento emocional é impedido de alguma forma, o corpo vai se lembrar disso. Pessoas com problemas emocionais e mentais particulares têm maneiras definidas de portar e mover seu corpo. É possível usar isso para diagnóstico e tratamento. Se essa informação é útil no tratamento de doenças psíquicas, sua utilidade não fica porém restrita a esses casos extremos. O que chamamos hoje de stress, depressão, ansiedade, são sintomas de neurose - desequilíbrio emocional que assume proporções epidêmicas. Há uns três anos atrás um amigo meu admitiu publicamente ser neurótico. Observou uma amiga comum: “E você conhece alguém que não seja?” Massagens têm grande utilidade na psicoterapia, porque a manipulação faz aflorar a memória muscular, inclusive dos eventos da primeira infância. Claro está que a massagem - ou qualquer outra terapia corporal - não faz milagres, o material que é trazido à tona precisa ser elaborado conscientemente. Do contrário, vai ser só mais um sofrimento vão. Thérèse Bertherat, criadora do que se convencionou chamar antiginástica, descreve em um de seus livros sua experiência com o rolfing. Fez com que ela sentisse a cicatriz do fórceps. Se dói, por que mexer? Para ter uma vida plena, para deixar de viver amarrado pelas tensões corporais, para construir para si um presente que seja mais do que uma repetição do passado. Passado que cada um de nós carrega nos menores gestos, levando a vida a ser sempre uma repetição dos mesmos tristes velhos fatos. Para ter uma coisa melhor do que essa “vidinha meia boca”, como disse outro neurótico assumido. Ah, este é o problema, diria Hamlet. Se é possível conhecer pelo jogo de tensão e flacidez musculares a história emocional, então o massagista conhece a pessoa muito profundamente no ato de tocá-la. A vergonha de estar nu durante a massagem inclui essa nudez mais que física. A massagem só faz sentido se for um ato de amor. Sei que é perigoso fazer essa afirmação porque amor é um eufemismo para sexo, e mesmo sexo é um eufemismo para genitalidade. Seria melhor usar a palavra compaixão, mas é preciso explicar que compaixão significa etimologicamente sofrer junto. Não é possível um encontro tão significativo entre duas pessoas sem que os dois saiam modificados. A troca de energia, de emoções, é inevitável. E é o que permite a compaixão. ¤ |
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Criada por Arnaldo
V. Carvalho
RJ/ BRASIL
- Fevereiro de 1999 • Última Atualização:
NOV 2005
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