AO QUERIDO
ALTAMIRO VIANNA
Website dedicado à vida e obra deste médico fluminense.

RESUMO BIOGRÁFICO

Altamiro Vianna, mais que um médico, um brilhante ser humano
Ele conseguia aliar alta técnica e competência ao amor e humildade

Arnaldo Vianna e Vilhena de Carvalho

Quem via a figura imponente do Dr. Altamiro, o médico alto, forte e bonachão passando pelos corredores dos hospitais, não imaginava que o fundador de inúmeras instituições médicas e catedráticas em medicina Dr. Altamiro Vianna passou privação na infância e ergueu seu nome junto à profissão e à sociedade às custas de muito sacrifício e trabalho.

Nascido aos vinte e um dias de agosto de mil novecentos e dezesseis, o menino Altamiro, em sua infância, residia em Campos, no norte fluminense. Era o último de seis irmãos. “Birinho” , como era chamado, estudava matemática em papel de pão com livros que haviam sido usados e enviados por seu irmão mais velho, que estudava na capital. Assim, desde cedo foi professor de si mesmo. Chegou a ter que dividir os sapatos com o irmão Alberto (o notável Dr. Alberto Belga Vianna), o que os obrigava a se revezar para sair. De saudade daquele tempo, os relatos do angu de banana verde que sua mãe fazia para conseguir alimentar os filhos.

Após a morte de seu pai, Altamiro e Alberto seguiram para morar com a irmã em Niterói. Lá estudou no Liceu Nilo Peçanha. A partir um novo destino do menino pobre, hábil em matemática e que sonhava ser engenheiro começou a ser esquadrinhado: Foi lá que conheceu sua amiga, esposa e companheira de todas as horas, Dra. Florisbela Vianna, a Dra. “Belinha”, e onde pôde abrir portas para que ele seguisse medicina na então nova Faculdade Fluminense de Medicina (A UFF estava sendo criada e a então Escola Fluminense de Medicina passava a se integrar à mesma).

Desde então, destacou-se como estudante, tendo sido aluno e seguidor do Prof. Victor Rodrigues, a quem sempre prestou homenagens. Formou-se em 1940 e entrou para o exército, sendo transferido para Foz de Iguaçu. Lá foi realizado o casamento entre Dr. Altamiro e Dra. Belinha, mulher destemida para os padrões da época, tendo aceitado casar indo para uma Foz de Iguaçu ainda selvagem.

Em Foz, fizeram amigos, criaram animais silvestres de estimação (tinham por estimação um javali, uma arara, uma irara e um quati) e fizeram história. Posteriormente, ainda no exército, retornaram para Niterói, tendo o Dr. Altamiro atuado no Forte Imbuí. Lá tiveram sua primeira filha Gilda, e cinco anos mais tarde, Alexandre, nascido pelas mãos do amigo pessoal Dr. Carlos Tortelly.

Passando a dar aulas na cadeira de ginecologia e obstetrícia da UFF como professor assistente, posteriormente sagrando-se professor titular, Dr. Altamiro obteve êxito por todos os lugares passou. Seus contemporâneos lembram facilmente de sua personalidade vivaz, de inconfundível humor e genialidade. Cientista, deu à medicina inúmeras contribuições científicas.

Foi um dos fundadores da Academia Fluminense de Medicina, e seu ex-presidente em 1977.

Organizou inúmeras associações e sociedades em nível estadual, nacional e internacional, como a Sociedade de Ginecologia Obstetrícia do Rio de Janeiro, Sociedade Brasileira de Cirurgia Pélvica, Associação de Citologia e Colposcopia do Rio De Janeiro, World Association for Ginecological Câncer Prevent, International Fertility Association, e participou de outras tantas, como a FEBRASGO, a AMF (Associação Médica Fluminense) e AMB (Associação Médica Brasileira), Colégio Internacional de Cirurgiões, e World Medical Association.

Consagrou-se emérito da Academia Fluminense em 1985.

Foi fundador e diretor do Hospital e Maternidade Santa Rosa, e fez nascer milhares de niteroienses, operou e fez curar outros milhares de pacientes, que vinham de todo o estado para com ele se tratar.

Em 1990 começou a reduzir suas atividades, embora tenha estudado arduamente a nova doença de até então, a AIDS, e continuado a atender em seu consultório. Aposentou-se definitivamente em 1994. Vítima do Mal de Alzheimer, veio a falecer no último 23 de julho, tendo sua serenidade preservada até os últimos instantes.

Dr. Altamiro será lembrado por muitos de seus atos e virtudes: Sua conduta sempre reta, sua força de espírito inabalável e sua paixão ardorosa pela medicina, associadas a uma competência profissional e um raciocínio rápido e criativo fizeram de Altamiro Vianna um vulto reconhecido por todo o lugar que passou. Pelos inúmeros partos que fez e acompanhou, pelas milhares de vidas salvas, pelos inúmeros doutores apaixonados pelo que fazem, só podemos acreditar que Deus o recebeu com muitos elogios pelo bom trabalho prestado em vida. Nós, que aqui aguardamos também a hora do derradeiro reencontro, só temos a exclamar: Muito obrigado, Doutor Altamiro, por tudo o que representou!

*Arnaldo Vianna e Vilhena de Carvalho é neto do Doutor Altamiro e pesquisador de sua biografia

UMA HISTÓRIA NARRADA PELO PRÓPRIO DOUTOR ALTAMIRO:

Estávamos em princípios de 1943, no auge da 2ª Guerra Mundial. Servia eu, então, como 1º Tenente Médico, desde 1942, na 1ª Cia. Independente de Fronteira, em Foz de Iguaçu. Olhando para o sul, vislumbrava o território argentino. Voltando para o oeste, na outra margem do Rio Paraná, o Paraguai. A Unidade encarregada da vigilância territorial vinha de ser transformada no 1º Batalhão de Fronteira, incorporando efetivo de guerra. Cabia a mim, o único oficial médico do efetivo, selecionar os recrutas. A essa altura, o Brasil já compunha o bloco dos aliados.

A RESPONSABILIDADE DA DECISÃO

A vigilância era dobrada na fronteira com a Argentina e o Paraguai. No encontro territorial dos três países, estava a missão principal do móvel Batalhão brasileiro. Por sua localização, a Unidade se achava mais próxima dos centro populacionais dos países vizinhos que dos nossos. A ligação por terra, para Curitiba, levava 5 a 18 dias, dependendo das condições atmosféricas da região. Por via aérea, então quando saia avião, durava de 6 a 8 horas. Para a alimentação da tropa estávamos na dependência imediata da produção local, sempre escassa e de acesso difícil. O abastecimento era suplementado pelas tropas de fronteira, o que poderia ser interditado a qualquer momento, na dependência da evolução dos acontecimentos. Os outros oficiais médicos, que haveriam de compor o serviço sanitário do Batalhão, não haviam se apresentado. Era toda minha exclusivamente, a responsabilidade pela seleção dos recrutas.

O PODER DAS IDEIAS
Estava, naquela ocasião, impressionado com a leitura de um magnífico livro, de Heise “A Odisséia de um médico americano”. Nessa obra, o autor descreve a prática diurna de sanitária interessado, trabalhando em diversos países subdesenvolvidos. Orientado por uma rica vontade de bem servir5, esse médico alcançou altitude épica e instantes heróicos em sua batalha contra endemias e epidemias nos países em que atuou. Um único homem, sozinho, colocando toda a sua energia e ciência no cumprimento de um ideal, realizou, sem dúvida, uma obra de grandeza incomparável de assistência e profilaxia, de resultados inimagináveis. Há quase um ano eu vivi na fronteira, e tinha conhecimento bastante realístico das baixas condições de saúde da população local, fruto do pauperismo e da carência de instrução e da assistência médico sanitária imperante quase nula na região.

UM CRITÉRIO REVOLUCIONÁRIO

As condições sócio-econômicas da população eram bastante precárias, portanto, ocorreu-me que, se tirasse do campo o homem forte e sadio para incorpora-lo a o batalhão, estava criando condições para agravar o pauperismo dominante e conseqüentemente, aumentar a deterioração das condições de saúde locais. O círculo vicioso resultante iria piorar rápida e progressivamente a situação, de modo a deixar a própria abstinência da tropa a Mercê da importação de gêneros essenciais á alimentação. Resolvi então, recrutar os recrutas às avessas.: o homem forte, robusto, ficava de lado para que pudesse continuar seu trabalho no campo. Já o homem sem defeito físico, mas desnutrido, anêmico e cheio de cáries dentárias e em condição de fácil recuperação era considerado apto. NO dia em que aqueles recrutas, ainda a paisana, desfilaram, desajeitados, sem energia, diante do Comandante, este se assustou pela precária qualidade do material humano que via. Fui por isso interpelado com severidade. Expliquei, em resposta que aqueles recrutas, tratados e alimentados, em pouco tempo dariam à Unidade um contingente que encheria o seu Comandante de orgulho por seu padrão físico. Intranqüilo com minha explicação, o Comandante solicitou à Autoridade Regional um inquérito.

A VONTADE GERA A AÇÃO

Eu estava em atividade febril. Tratei tensamente a verminose e o paludismo que instava quase a totalidade do contingente. Curei a anemia resultante daquelas infestações. Em colaboração com o dentista do batalhão, participei da extração dos dentes com foco de infecção, na grande maioria dos recrutas. Enquanto isso, os soldados, recebendo alimentação regular que eram carentes e praticando os exercícios físicos normais da tropa, com regime de trabalho e repouso regulares, transformaram-se, um curto prazo, em soberbos espécimes humanos. Fora dos meus olhos, porém, a máquina burocrático-militar se movimentava com lentidão, dentro da extrema dificuldade de comunicação existente, para proceder ao inquérito solicitado. Nesse ínterim, toda via, o panorama modificou-se radicalmente. Em menos de três meses a engorda média dos recrutas foi de 13 KG por soldado. Para dar uma idéia do trabalho, basta mencionar que mais de 1800 dentes foram extraídos, numa média de 3 por homem.

O ELOGIO NO LUGAR DA PUNIÇÃO
O oficial superior de saúde, encarregado do inquérito, chegou a Foz de Iguaçu. O que viu foi uma tropa de homens corados, bem nutridos, desempenados, ágeis, com bastante vivacidade e um sentido de vida diferente. Como resultado, então não vale a punição. Recebi, no lugar dela, o prêmio de um elogio que tenho em minha fé de ofício. Testemunharam este fato o General Moacyr Lopes de Rezende, Capitão Comandante de Fronteira daquela época, e o general médico Dr. Henrique Moss de Almeida, que foi o Major Médico encarregado do inquérito que acabou em elogio. A ambos tributo, até hoje, muita amizade e respeito.

Agradecimentos:
Dra. Belinha Vianna
Gilda Vianna
Helyete Maria S. Monnerat
Dra. Marilza Barreto

 

Se você conheceu o Dr. Altamiro Vianna, pode nos ajudar, dando um depoimento a respeito de sua história, seja pessoal ou profissional. Para tanto, basta nos enviar um e-mail.
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Página criada por Arnaldo Vianna / Março de 1999
Última Atualização: Agosto de 2004