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ECOLOGIA
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ECOLOGIA
Energia
e Floresta
Paulo de GÓES
Se é verdade que a crise de energia hoje é
atribuída à falta de investimentos a longo prazo na sua
geração e transmissão, somada à seca atípica
que assolou o Sudeste e o Nordeste do país, também é
certo que essas não são as únicas causas. Considerando
que a nossa eletricidade é gerada principalmente por usinas hidroelétricas,
e que a reserva de água nos açudes é a principal
escassez, pergunta-se: de onde vem essa água e quais os problemas
nesse trajeto?
O clima no Sudeste tem uma distribuição muito desigual das
chuvas, que alcançam 200-300 mm/mês nos meses de verão,
chegando em média a 20 mm/mês no período mais seco
do inverno. Isso significa que as chuvas de verão abastecem os
lençóis de água (água acumulada no solo) de
forma a garantir a permanência de nosso rios através do período
seco, abastecendo lagos, açudes e barragens. A constituição
geológica do Sudeste funciona como uma esponja, que recebe e acumula
água na época de chuvas intensas e a libera gradativamente
no período de seca. Para que esse processo funcione bem, é
essencial a abundante penetração das águas de verão
no solo. A cobertura vegetal na superfície do solo é um
fator determinante desse processo.
Quando a cobertura é florestal, a chuva molha primeiro a folhagem,
para depois ir lentamente chegando ao solo, penetrando gradativamente
até atingir camadas mais profundas, O solo coberto com floresta
garante maior permeabilidade, tornando-se capaz de absorver a água
proveniente de chuvas torrenciais de verão. Já em solos
desmatados, com baixa densidade de cobertura vegetal, essas chuvas alcançam
rapidamente o solo, e este, por ter menor permeabilidade à água,
permite que o excesso comece a escorrer pela superfície, gerando
erosão e arrastando partículas de solo para o leito dos
rios, processo chamado de assoreamento. O desmatamento tem como saldo
um abastecimento menor dos lençóis de água, ao mesmo
tempo em que acentua as enchentes, pelo escorrimento superficial com acréscimo
rápido de grandes volumes de água aos leitos reduzidos pelo
assoreamento.
Na região Sudeste, o desmatamento da Mata Atlântica alcançou
mais de 90% de sua área sendo hoje necessário recuperar
essa perda através do reflorestamento, para garantir nossos mananciais
hídricos. O desafio de como fazer isso passa pelo reconhecimento
da importância do reflorestamento de grande porte, viabilizando
politicamente seu financiamento, e buscando conciliá-lo com o uso
agrícola e pastoril. A importância do reflorestamento é
óbvia, pelo ganho do aumento dos recursos hídricos de que
tanto carecemos para fins energéticos e de abastecimento, reduzindo
os prejuízos das enchentes, preservando a biodiversidade, que necessita
de matas, aumentando o estoque sustentável de madeira e por fim
captando através da fotossíntese grande quantidade de CO2
da atmosfera, contribuindo assim para a redução do efeito
estufa. Resta discutir melhor as estratégias de reflorestamento
e como superar os empecilhos para sua concretização.
Na região Sudeste, atualmente ressentida pela escassez de água,
encontram-se as cabeceiras do Rio São Francisco e as bacias hidrográficas
dos rios Paraíba do Sul e Doce. Grande parte dessa região
de topografia acidentada chamada de "Mar de Morros" tem pouca
agricultura e revela alta potencialidade o reflorestamento. O Estado do
Rio de Janeiro, por exemplo, usa aproximadamente 50% para pecuária
e menos de 3% para agricultura. Sua indiscutível vocação
florestal até agora sempre foi contrariada.
As prioridades na região montanhosa do Sudeste poderiam voltar-se
para um reflorestamento calcado na produção de madeira,
na exploração agroflorestal (que permite o uso agrícola
combinado com a floresta), e com exploração extrativista.
Em área de pastagem deveria ser feito um consórcio com plantio
espaçado de determinadas espécies de árvores que
beneficiariam o solo, e com isso, o gado. Nas regiões mais propícias
à agricultura, o principal é preservar ou resgatar as matas
ciliares que margeiam os rios e garantir o cumprimento dos percentuais
da legislação nas propriedades. As matas ciliares são
muito importantes porque retêm o assoreamento e constituem barreiras
aos resíduos de agrotóxicos, evitando que alcancem os rios.
Formam ainda corredores, entre fragmentos florestais, que permitem a sobrevivência
de animais de maior porte, que de outra maneira seriam extintos. Uma possibilidade
a mais são cercas reflorestadas para proteger as plantações
do ressecamento pelo vento, beneficiando a produção agrícola.
Se o reflorestamento tem tantas virtudes e pode ser feito de forma compatível
com a exploração agropastoril, por que não é
feito em larga escala? O reflorestamento, mesmo com eucalipto ou pinus,
espécies para a qual dispomos de tecnologia eficiente, não
representa um bom retorno de investimento, quando a madeira é utilizada
em forma de lenha, a não ser que sua produção tenha
um valor agregado, como é o caso da produção de celulose.
Em outras palavras, não haverá um reflorestamento significativo
se essa atividade for regulada somente pelas leis do mercado. O sucesso
do reflorestamento no Brasil só ocorreu no período em que
havia incentivos fiscais. Não podemos submeter a ação
política apenas a cálculos econômicos, pois estão
em jogo todas as nossas atividades, que hoje dependem de energia elétrica,
assim como a qualidade de nosso meio ambiente.
Um ambiente degradado resultará num novo equilíbrio da natureza.
Por isso devemos decidir se continuamos a resolver os problemas de forma
imediatista ou se procuramos estabelecer uma harmonização
de nossas necessidades, respeitando o ambiente em que vivemos. Possibilidades
temos e muitas. A questão é decidir qual o caminho a ser
escolhido.
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Paulo de Góes é professor do Instituto de Microbiologia
da UFRJ
Extraído do Jornal do Brasil de 5 de Junho de 2001
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