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ALIMENTAÇÃO
Por que o espinafre
faz mal à saúde
Jocelen Mastrodi Salgado*
O consumo do espinafre aumenta a cada dia que passa. O famoso
marinheiro Popeye, faz propaganda do alimento, dando a entender que quem
come espinafre está sempre forte e pronto para superar qualquer
obstáculo. O que poucos sabem, é que no mesmo país
de origem do desenho (Estados Unidos), há algumas décadas
atrás, a ingestão de leite batido com espinafre (o objetivo
era enriquecer a bebida com ferro), causou a morte de crianças
recém-nascidas. A doença ficou conhecida como doença
do branco do olho azul, pois o branco dos olhos ficava dessa cor. Posteriormente,
descobriu-se que a presença do espinafre no leite era a causadora
da tragédia, mas na época (1951) o fato foi encoberto e
o desenho do marinheiro Popeye continuou a ser exibido.
Por que devemos tomar cuidado com o espinafre
O espinafre é um dos alimentos vegetais que mais contém
cálcio e ferro. Entretanto, esses dois minerais são pouquíssimo
aproveitados pelo nosso corpo, já que o alto teor de ácido
oxálico no vegetal inibe a absorção e a boa utilização
desses minerais pelo nosso organismo. Os estudos mostram também
que o ácido oxálico do espinafre pode interferir com a absorção
do cálcio presente em leites e seus derivados.
Esse fato sugere que o espinafre em uma refeição pode reduzir
a biodisponibilidade de cálcio de outras fontes que são
consumidas ao mesmo tempo. Por isso, se no seu almoço você
comeu uma torta de queijo com espinafre, tenha certeza que grande parte
do cálcio do queijo não foi utilizada pelo seu organismo.
Outra grande preocupação é o possível efeito
tóxico que a ingestão de grandes quantidades dos fatores
antinutricionais presentes na planta pode causar nas pessoas. Com o objetivo
de avaliar todos esses problemas, uma pesquisa, que resultou em uma tese
de mestrado, foi desenvolvida na ESALQ/USP sob minha orientação.
O estudo intitulado "Avaliação química, protéica
e biodisponibilidade de cálcio nas folhas de couve-manteiga, couve-flor
e espinafre" teve como objetivos verificar se determinadas plantas
podiam ser utilizadas na dieta humana, sem causarem prejuízos à
saúde e o bem-estar do indivíduo.
A pesquisa da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ/USP)
As folhas estudadas foram adquiridas no comércio local e a folha
de espinafre foi também adquirida de outros dois locais: da Fazendinha
da UNIMEP e da horta do Departamento de Horticultura da ESALQ/USP. Essas
folhas foram lavadas, secas em estufa e moídas. A seguir, foram
acrescentadas nas dietas que foram avaliadas durante o ensaio experimental
com duração de 30 dias.
Resultados
Os resultados começaram a impressionar quando verificamos os teores
dos dois fatores antinutricionais investigados: ácido fítico
e oxálico. A folha de espinafre apresentou valores muito altos
em relação às demais. Como conseqüência
desse fato, os animais alimentados com a folha de espinafre morreram na
primeira semana, e portanto, não puderam ser avaliados até
o final do estudo. Várias tentativas foram feitas, utilizando dietas
com folhas de espinafre cozidas (acreditávamos que o calor pudesse
destruir os fatores tóxicos presentes) ou folhas de espinafre provenientes
de outros locais (livres de agrotóxicos que pudessem ter influência).
Contudo os mesmos resultados repetiram-se, ou seja, houve a morte dos
animais com hemorragia, tremores e perda de peso. Os rins dos animais
mortos foram retirados e analisados pela Faculdade de Odontologia de Piracicaba/UNICAMP.
De acordo com o laudo apresentado pelo Departamento de Patologia, foi
comprovado inchaço renal, indicando uma nefrotoxidade, edema celular
e depósito de substâncias aparentemente cristalizadas nos
túbulos renais, o que provoca disfunção renal.
De acordo com vários pesquisadores, a explicação
provável estaria na presença do ácido oxálico
no alimento, que além de causar um balanço negativo de cálcio
e ferro, em doses superiores a 2g/Kg de peso, pode causar toxicidade nos
rins. Já o ácido fítico, quando na proporção
de 1% na dieta, seria o responsável pela redução
do crescimento dos animais jovens. Na década de 80, estudos já
atribuíam ao ácido oxálico sintomas como lesões
corrosivas na boca e trato-intestinal, hemorragias e cólica renal,
causados pela ingestão de plantas ricas nesta substância.
De acordo com esses mesmos estudos, o espinafre que possui a relação
de ácido oxálico/cálcio superior a 3, deve ser evitado.
Na nossa pesquisa isso foi observado.
Com relação às demais folhas, couve-manteiga e couve-flor,
não foi observado nenhum efeito tóxico, verificando-se que
a melhor biodisponibilidade e retenção de cálcio
nos ossos (73%) ocorreu nos animais que ingeriram a dieta contendo couve-manteiga.
Os resultados desse estudo nos levam a acreditar que o consumo de espinafre
deve ser substituído por outros vegetais folhosos, já que
os efeitos proporcionados pela ingestão das substâncias antinutricionais
presentes na folha, podem ser prejudiciais à absorção
de nutrientes importantes para nossa saúde, e essas mesmas substâncias
podem causar sérios problemas tóxicos.
Os resultados também sugerem que além da grande presença
de ácido oxálico e fítico, provavelmente a folha
do espinafre contenha outras substâncias tóxicas, que supostamente
levaram à óbito os animais do estudo, bem como causaram
o incidente com os recém-nascidos nos Estados Unidos. Essas substâncias,
ainda não identificadas, exerceriam ações tóxicas
em pessoas mais sensíveis e levariam a chamada "doença
do branco do olho azul". Fica claro, portanto, a necessidade de mais
estudos elucidativos a respeito do assunto.
Finalizando, a minha dica é que todos procurem dar preferência
a outros vegetais folhosos em substituição ao espinafre:
a couve, brócolis, folha de mostarda, agrião, as folhas
de cenoura, beterraba e couve flor e leguminosas como os feijões,
ervilhas, lentilhas e soja são as melhores opções
para quem quer consumir fontes alternativas de cálcio e ferro.
* Profª. Titular de Vida Saudável da ESALQ/USP/Campus
Piracicaba. Autora dos livros: "Previna Doenças. Faça
do Alimento o seu Medicamento" e "Pharmácia de Alimentos.
Recomendações para Prevenir e Controlar Doenças",
editora Madras.
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